Enquanto tudo em volta está
confuso, perdido, barulhento, o mar segue calmo, sereno, volúvel.
O som das ondas quebrando na
areia, a espuma molhando meus pés, a chuva acariciando meu rosto, o sentimento
de leveza, quase como o vento que me abraça.
Não sinto frio, e mesmo assim
experimento o arrepio, que vem devagar, beijando minha espinha. Acaricia meu
pescoço e sussurra ao meu ouvido, em segredo, histórias que nunca aconteceram.
O mar me puxa. Cada vez com mais
força, convidando ao naufrágio.
Sou barco pequeno, frágil. Com
várias emendas, consertos malfeitos em momentos imperfeitos. Minha pintura é
representação pura do pesado, do negro, da sombra que vai na minha alma.
A cada passo, hesitante, permito
uma nova sensação. Consinto o toque, as águas lambendo cada pedaço conquistado sem
muita resistência. Cálida sinto-me, fluidamente, sendo seduzida pelo mistério
que me devora, sem pudores, em manto azul.
De olhos fechados aceito ser
invadida por todos os medos que espreitavam, argutos e silenciosos, nos cantos
esquecidos da minha existência.
Desligo minha mente,
completamente, e deixo que a onda invada todos os espaços vazios. Não tenho
medo. Tenho plena consciência da dor que invade, da sensação de impotência. O
maremoto bagunça, mistura, aturde. Caos.
A água na minha cintura, o
silêncio, o sentir. Vivencio aquele momento e cada centímetro de mim pulsa, com
uma força inexplicável. É como se a
minha essência tentasse se agarrar em mim e eu, escorregadia, não permitisse.
A respiração, calma e profunda,
empurra para longe qualquer possibilidade de julgamento. Gozo o momento, pois
muito pouco existe além dele.
Quando abro os olhos, vejo
imensidão.
Estou imersa, irreversivelmente,
em mim.

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