domingo, 29 de julho de 2018


Enquanto tudo em volta está confuso, perdido, barulhento, o mar segue calmo, sereno, volúvel.
O som das ondas quebrando na areia, a espuma molhando meus pés, a chuva acariciando meu rosto, o sentimento de leveza, quase como o vento que me abraça.
Não sinto frio, e mesmo assim experimento o arrepio, que vem devagar, beijando minha espinha. Acaricia meu pescoço e sussurra ao meu ouvido, em segredo, histórias que nunca aconteceram.
O mar me puxa. Cada vez com mais força, convidando ao naufrágio.
Sou barco pequeno, frágil. Com várias emendas, consertos malfeitos em momentos imperfeitos. Minha pintura é representação pura do pesado, do negro, da sombra que vai na minha alma.
A cada passo, hesitante, permito uma nova sensação. Consinto o toque, as águas lambendo cada pedaço conquistado sem muita resistência. Cálida sinto-me, fluidamente, sendo seduzida pelo mistério que me devora, sem pudores, em manto azul.
De olhos fechados aceito ser invadida por todos os medos que espreitavam, argutos e silenciosos, nos cantos esquecidos da minha existência.
Desligo minha mente, completamente, e deixo que a onda invada todos os espaços vazios. Não tenho medo. Tenho plena consciência da dor que invade, da sensação de impotência. O maremoto bagunça, mistura, aturde. Caos.
A água na minha cintura, o silêncio, o sentir. Vivencio aquele momento e cada centímetro de mim pulsa, com uma força inexplicável.  É como se a minha essência tentasse se agarrar em mim e eu, escorregadia, não permitisse.
A respiração, calma e profunda, empurra para longe qualquer possibilidade de julgamento. Gozo o momento, pois muito pouco existe além dele.
Quando abro os olhos, vejo imensidão.
Estou imersa, irreversivelmente, em mim.




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